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Otosclerose: Para que limitar-se?

Desde criança fui atraída pelo som. Mas estamos habituados a um mundo tão absurdamente barulhento fora dos padrões, que o único som, de fato, agradável acaba sendo a música. Cantei no coral da escola, quando sonhava em ser freira ou médica (ou freira e médica e cantora, por quê não?).

Mais tarde, meu contato com microfones foi em oratórias da escola, da crisma, da torcida organizada do interclasse, e por aí vai.

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Música, música, música. Sempre ela. Quando eu fazia a oitava série teve um concurso entre as escolas particulares da cidade. Fizeram uma seletiva interna na escola para escolher aquele que iria representa-la na competição. Estávamos concorrendo eu e mais duas garotas. Cantei “Metade”, da Adriana Calcanhoto, mas quem levou a melhor foi a garota que cantou “Ovelha Negra”, da Rita Lee. No dia do concurso ela não pôde comparecer e os curadores gostaram bastante da minha voz cantando rock. Acontece que a essa altura minha mãe não permitiu mais que eu participasse. Ela disse que não aceitaria que eu servisse apenas para “tapar buraco”. Claro, disse isso porque me viu chorando copiosamente após não ter sido selecionada e porque achou que tinha sido marmelada. Ok, confesso. Também pensei isso. Por isso me frustrei. O fato é que ninguém da escola cantou e quem ganhou o concurso foi um garoto que tinha limitações físicas e tocava teclado com os dedos dos pés. Achei justo. Não por isso, mas porque ele realmente cantava muito bem! O lance do teclado era complemento. O cara tinha talento e isso basta.

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Anos mais tarde, sem razão alguma, decidi que me inscreveria no Fama, um programa televisivo a nível nacional que caçava novos talentos para a música. No dia do teste, a fila era gigantesca. Pensei “meu Deus! Vou perder meu trabalho”, mas permaneci lá, afinal, já tinha passado a manhã inteira esperando. Depois desse tempo todo você meio que desanima, principalmente quando começa a perceber que seus concorrentes são os músicos mais aclamados da cidade (“o que eu tô fazendo aqui?”). Não sei o que houve na hora do teste. Mas acho que o desânimo fez com que eu não levasse o processo tão a sério e cantei como quem canta no chuveiro. De forma performática, inclusive. Fiquei tão a vontade que quando abri os olhos fiquei envergonhada com o silêncio e a cara do curador. Depois do “mico”, que duraram segundos (que pareciam séculos), ele disse “solta esses cabelos e vá para o teste de vídeo. Repita para a câmera exatamente o que você fez aqui. Torço por você”. Bom, a ansiedade tomou conta de mim (isso é real?) e novamente travei, fiquei nervosa. Câmera realmente não era meu forte. E eu não tinha a menor expectativa de adentrar mais ainda ao estúdio. Para mim, ia cantar e ia embora. A música era “Como Nossos Pais”, de Elis Regina, e a memória da empolgação daquele homem me fez sentir a mulher mais feliz do mundo por anos a fio. É uma boa memória, certamente.

Depois dessa experiência e de ter sido impedida pelo meu pai de tentar faculdade de música (“pode escolher qualquer curso, menos música”), entendi que a música para mim tinha que ser prazer, um hobby. Do contrário, ela poderia se tornar uma pedra inconveniente, cheia de tropeços e decepções. Gostava dela exatamente como ela estava. Para saciar a tagarelice do canto ao longo da vida, videokês, barzinhos depois de tomar umas e o chuveiro sempre foram uma excelente plateia compreensiva e alegre.

A maioria das pessoas não sabem se estão com problemas de surdez

A maioria das pessoas não sabem se estão com problemas de surdez

A partir dos 25 anos, porém, a vida me pregou uma peça. Foi como se dissesse “você disse que gostava de sons? Então escute-os!”. Descobri que tinha otosclerose, uma doença auditiva progressiva que leva, em alguns anos, à perda total da audição. Tentei cirurgia, uso de aparelhos auditivos, busca espiritual. Aos 33, percebo que meu ouvido vai bem mal…

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Nas minhas últimas férias viajei para o sertão. Quando eu estava dormindo, o cachorro pegou meu aparelho auditivo e simplesmente destruiu. Irrecuperável. Naquele momento eu tinha duas opções: Azedar minhas férias com lamentações e mau humor ou seguir como se nada tivesse acontecido (“o que a vida queria me mostrar com isso?”). Foi quando me dei conta que a música não era o único som provável e agradável da Terra. A música sempre foi só uma referência. Descobri que o silêncio pode ser bem barulhento. Chego a crer que ele não existe, porque minha cabeça também é bem barulhenta. E percebi que quando nos desligamos de tudo pelo som, podemos ouvir o vento, perceber as cores, sentir o formigamento na ponta dos dedos. Todas as outras coisas ficam em segundo plano. O corpo passa a ser uma extensão do ouvido. E tem sido mais ou menos essa a experiência que tenho vivido.

Não, eu não quero ficar surda. Mas também não quero estragar os meus dias com tensões desnecessárias. E sim, acredito em milagres. Vou apenas vivendo e descobrindo a riqueza dessa experiência, sempre me perguntando o que a vida está tentando me mostrar com tudo isso.

Convido-os a essa experiência. Tire os fones dos ouvidos. Pare de falar com quem quer que seja (até mesmo com seus pensamentos). Busque um lugar calmo, isolado de tudo. E escute apenas isso. Escute o que resta, pois o que resta pode ser tudo.

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julho 25, 2015 | Por Arteira | 1 Comentário

Comer, Rezar, Amar – Reflexões sobre si

Eu poderia, como estudante de Cinema e Audiovisual, fazer uma análise técnica do filme. É que quando a gente atravessa o véu da tecnologia, a sensibilidade dos diálogos parecem ficar em segundo plano. Mas não neste caso. Entreguei-me ao Comer, Rezar, Amar como público leigo, sem busca de nada, apenas refletindo sobre cada trecho, cada expressão, a sensibilidade musical e o universo invisível da personagem que, sendo mulher, foge das expectativas de um ser humano ‘libertador’, segundo nossa sociedade machista.

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Então, tirando essa parte de ser um filme massante, cansativo, lento e que, segundo alguns críticos (?) não explorou o suficiente o talento de Julia Roberts (e não vou tomar partido por ninguém aqui), o que tenho a falar é sobre o toque. Sim. A história baseada na vida da escritora Elizabeth Gilbert tem um quê de tocar na ferida. Parece que ele, mesmo de modo ralentado, parece cutucar alguma parte íntima adormecida do público. Não importa se é público feminino ou masculino. O fato é que atinge. Quantas pessoas não conhecemos que gostariam de largar tudo e passar um ano viajando só para entender o seu lugar no mundo? Quantas sabem o que é o ‘prazer de não fazer nada’ sem o sentimento de culpa? Quantas não tiveram histórias similares a de Richard do Texas, pai alcoólatra que perdeu tudo por conta do vício? Que mulher ousaria se lançar no mundo sozinha, sem conhecer ninguém, sem casa, sem emprego, sem apego? Quem arriscaria uma experiência transcendental? Sim, alguma coisa sempre toca.

Comer Rezar Amar

Confesso, entretanto, que achei o livro bem mais divertido. Você consegue ler, rir, parar, refletir e até chorar em algumas passagens. Mas não é justo fazer esse comparativo entre a obra literária e a cinematográfica. Estamos falando de liberdade de criação, o que não obriga um diretor a ser fiel ao livro e nem a ter a mesma interpretação que a gente.

E só para deixar um pouco no ar a imersão ao mundo de si, compartilho o trailer e algumas frases do filme e livro:

  • E-mail de Liz ao seu machucado amor, David:’Outro dia, um amigo me levou a um lugar incrível: o Augusteum. Otaviano Augusto o construiu para abrigar seus restos mortais. Quando os bárbaros vieram, eles o demoliram junto com todo o resto. Como Augusto, o primeiro grande imperador de Roma, imaginaria que Roma e que todo o mundo como ele o conhecia ficaria em ruínas? É um dos locais mais sossegados e solitários de Roma. A cidade cresceu ao seu redor ao longo dos séculos. O lugar é como uma ferida, um coração partido ao qual você se apega, pois a dor é boa. Todos queremos que as coisas permaneçam iguais, David. Aceitamos viver infelizes porque temos medo da mudança, que as coisas acabem em ruínas. Aí, eu olhei esse lugar, o caos que ele suportou, o modo como foi adaptado, queimado, pilhado e depois encontrou uma maneira de ser reconstruído, e me tranquilizei. Talvez minha vida não tenha sido tão caótica. O mundo que é, e a única armadilha real é nos apegarmos às coisas. A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva à transformação’.
  • ‘Esperar perdão de uma pessoa é perda de tempo. Perdoe a si mesma’
  • ‘Quando você sai pelo mundo para se ajudar, pode acabar ajudando’
  • Diálogo entre Liz e Richard do Texas: ‘- Selecione seus pensamentos como seleciona suas roupas todos os dias. Cultive esse poder. Quer controlar sua vida? Comece pela sua mente. Se não dominar seu pensamento, sempre sofrerá. – Eu estou tentando. – Esse é o maldito problema. Pare de tentar. Entregue-se’
  • David para Liz: ‘E se admitirmos que nossa relação é ruim mas continuarmos juntos? E se aceitarmos que brigamos muito mas não vivemos um sem o outro? Assim, podemos passar a vida juntos, Infelizes mas felizes por não nos separarmos’
  • ‘Ao final, passei a crer que: se você tiver coragem de deixar tudo o que é familiar e conhecido, desde a sua casa até antigos ressentimentos, para partir numa jornada em busca da verdade interna ou externa e se dispuser a encarar tudo o que lhe acontecer como uma pista e aceitar todos que cruzarem seu caminho como um mestre e se estiver preparado, acima de tudo para aceitar e perdoar realidades duras sobre si mesma, então, a verdade não lhe será negada. É algo que acredito por experiência.’
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julho 24, 2015 | Por Arteira | Comente

Storytelling da Pixar: Como escrever histórias criativas

Antes de mais nada, o que é storytelling, né, gente? Vou tentar resumir. Storytelling é a capacidade narrativa (visual ou textual) de se criar histórias relevantes, criativas, inesquecíveis. Este método geralmente utiliza palavras ou audiovisual para ser realizado. Para poder explicar melhor sobre isso, nada melhor que algumas dicas. Quer ser um bom contador de histórias? Então dá uma olhada em 22 regras de ouro utilizadas pela Pixar:

UP Altas Aventuras

1. Você admira um personagem mais por suas tentativas do que por seu sucesso;
2. Você deve manter em mente o que é interessante para você como espectador, não o que é divertido fazer como um escritor. Podem ser coisas bem diferentes;
3. Tentar seguir um tema é importante, mas você não saberá sobre o que a história realmente é até ela estar terminada. Agora, reescreva-a;
4. Era uma vez um… Todos os dias, …. Um dia …. Por causa disso, … Por causa disso, …. Até que, finalmente…;
5. Simplifique. Mantenha o foco. Combine personagens. Não se desvie do principal. Você sentirá como se estivesse perdendo algo de valor, mas isso vai libertá-lo;
6. No que o seu personagem é bom e fica confortável? Coloque ele no extremo oposto disso. Desafie-o. Como ele vai reagir?;
7. Pense no final antes de decidir o meio. De verdade. Finais são difíceis, antecipe o seu;
8. Termine sua história, deixe-a mesmo se ela não está perfeita. Em um mundo perfeito, você tem tudo, mas siga em frente. Faça melhor da próxima vez;
9. Quando você está empacado, faça uma lista do que não poderia acontecer a seguir. Muitas vezes o material que irá desempacar você vai aparecer;
10. Separe as histórias que você gosta. O que você gosta nelas é uma parte de você, você precisa reconhecer isso antes de usá-las;
11. Colocar as coisas no papel permite que você comece a consertá-las. Se esperar que a ideia se aperfeiçoe na sua cabeça, você nunca irá dividi-la com ninguém;
12. Abra mão da primeira coisa que vem à sua mente. E a segunda, terceira, quarta, quinta… Tire o óbvio do caminho. Surpreenda-se;
13. Deixe que seus personagens tenham opinião. Personagens passivos/maleáveis podem parecer afáveis para você enquanto você escreve, mas envenenam a audiência;
14. Por que você deve contar esta história? Qual a crença que a move e que alimenta você? Este é o centro de tudo;
15. Se você fosse o seu personagem, nesta situação, como você se sentiria? Honestidade leva à credibilidade em situações inacreditáveis;
16. O que está em jogo? Dê razões para nos envolvermos como o personagem. O que acontece se ele não conseguir? Aposte contra;
17. Nenhum trabalho é desperdiçado. Se não está funcionando, deixe quieto e siga em frente. Isso será útil mais tarde;
18. Você deve conhecer a si mesmo. A diferença entre fazer o seu melhor e exagerar. Contar uma história é testar, não refinar;
19. Coincidências que colocam os personagens em apuros são ótimas, coincidências para tirá-los da confusão é trapaça;
20. Faça um exercício: pegue um filme que você não gosta e divida-o em partes. Como você o organizaria de uma forma que você gostasse do resultado?;
21.Você deve se identificar com a situação/personagens que cria, e não apenas ser “cool” ao escrever. O que motivaria você a se comportar daquela maneira?;
22. Qual a essência da sua história? Qual a maneira mais resumida de contá-la? Se você sabe a resposta, pode começar daí.

Para quem gosta de escrever, vai ler e degustar essas dicas. Para quem gosta de ouvir histórias, terá desses leitores universos fantásticos para ‘mergulhar’.

Essa é a dica da fumiga de hoje. Até a próxima, pessoal. 😉

Fonte: Royaltalks

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agosto 23, 2014 | Por Arteira | Comente