Formigueiros

Cidade Sem Sol: Segundo espetáculo da trilogia


Seguindo a linha de comemoração de uma década de trabalhos profissionais em teatro, o Grupo Arte de Viver traz à tona o seu segundo ‘segredo’, o segundo espetáculo teatral de uma trilogia iniciada com o espetáculo Deus-Verme. Trata-se do espetáculo Cidade Sem Sol, uma excelente opção para quem está curtindo o período de férias em Fortaleza.

Para falar um pouco mais sobre a proposta cênica, produção e enredo entramos em contato com a direção do espetáculo, Hemetério Segundo, para uma sucinta entrevista que irá revelar maiores detalhes sobre o espetáculo:

Formigueiros – Cidade Sem Sol… Do que se trata?

Hemetério Segundo – Primeiro, como já foi dito, se trata de mais um grande sucesso do Grupo, principalmente, se levarmos em conta que é o segundo grande espetáculo dessa trilogia comemorativa dos 10 anos de trabalhos profissionais em teatro aqui no Ceará; quanto a história propriamente dita, ela é inspirada no regionalismo, na cultura popular, no imaginário coletivo, sem muitos clichês, o que é fundamental, mesmo porque procuramos, a todos os instantes, imprimir uma estética diferenciada, dando novos sentidos as mesmas coisas sempre tão vistas em qualquer montagem que trate desse estilo de história. O enredo fala de um ser, que representa toda a humanidade, em busca de um sentido para a própria vida, perdido em um mundo de palavras e significados onde o que se diz ou se pensa não importa, mas sim o como se diz ou se pensa determina um futuro, uma vida! Se pensarmos dessa forma, nessa lógica, vamos perceber o quanto o que se vê não faz sentido, mas, ao final do espetáculo, no fim da história, entederemos bem que o que importa não é o aparente, mas tudo aquilo que está na entrelinhas, no campo das sentimentalidades, da subjetividade.

CIDADE SEM SOL: Projeto Piloto do figurino

F - Você disse que o espetáculo atende uma estética diferenciada, porém, tendendo ao regionalismo. O que podemos esperar deste espetáculo?

HS – Quando falo de estética diferenciada, me refiro, principalmente, ao modo de apresentar os elementos regionais que dispomos e que tão bem expressam nossa cutlura e nosso povo. O espetáculo é bem sugestivo, bem trabalhado, e todo fundamentado no teatro do absurdo, onde o que importa não é a lógica aristotélica, a ordem convecional do fazer teatral (início, meio e fim), nós brincamos muito com isso. Para se ter uma idéia, o grande lance do espetáculo é entender que ele começa onde tudo termina, no fim, fazendo um apanhado geral da vida do personagem, trazendo a platéia para contextos impensados que, dentro de uma organização e de uma lógica convencional, seriam fatalmente deixados de lado e que, com o uso desse recurso atemporal podemos ir e vir a qualquer tempo, permitindo a platéia verdadeiros precipitados de sonhos; sem falar nas quebras de contexto, tão defendidas por Bertold Brecht em sua estética do distanciamento, que reforçam mensagens importantes e, porque não dizer, didáticas, em que o espetáculo se fundamenta. Outro recurso muito usado é o expressionismo, onde as ausências de objetos de cenas, de cenotecnia mais apurada, mais específica, expressam infinitamente mais que qualquer elemento que por ventura viéssemos a colocar na concepção; sem falar no simbolismo, onde literalmente nos aproveitamos de uma simbologia por si só riquíssima, como a nossa regionalidade, e abusamos das proposições de inúmeras outras simbologias; além de tudo isso, usamos também projeções, teatro de sombras, técnicas de xilogravura e primitivismo, enfim, todo um aparato técnico que, como em nosso saudoso DEUS-VERME, espetáculo que abriu essa trilogia, também encherá os olhos do espectador.

CIDADE SEM SOL: Projeto piloto de figurino

F – Hemetério, na entrevista anterior você nos contou que haveria um último evento que iria encerrar com ‘chave de ouro’ a trilogia teatral de comemoração de dez anos do grupo, mas que ainda era segredo. Mas, e agora? Será que a gente já pode saber um pouco mais sobre o que vem por aí?

HS –  Realmente, surpresa é surpresa, mas pelo andar da carruagem, com desenrolar desses dois primeiros grandes espetáculo de nossa comemoração da primeira década de trabalhos, posso dizer que, inegavelmente, 2010 vai dar o que falar, vamos verdadeiramente dar nosso recado, marcar nossa história no teatro cearense, agora neste fim de ano, voltaremos ao palco do Theatro José de Alencar, para fecharmos com chave de ouro nossos 10 anos e os 100 anos dessa nossa casa de espetáculos; coincidentemente ou não, revisitamos nossos trabalhos anteriores e refizemos nossos conceitos teatrais, relemos aquilo em que acreditávamos e, sem sombra de dúvidas, demos um passo importante para a nossa maioridade produtiva e artística. Costumo dizer nos ensaios que os trabalhos do Grupo nunca estiveram tão corridos e ao mesmo tempo tão rentáveis em termos de satisfação pessoal, profissional, artística, o elenco está empolgadíssimo e inspiradíssimo e isso é muito bom para a direção, mesmo porque não existem milagres nesse tipo de trabalho, se os atores não corresponderem, o diretor não rende. Por falar em elenco, é engraçado e ao mesmo tempo ‘elouquecedor’ saber que não é um só, acabamos tendo que preparar três elencos base para a trilogia e nos utilizar desses para compor entre si nossas necessidades e isso é muito estranho, pois tenho que dirigí-los, fazer consultas psicológicas, administrar parcerias, enfim, sou quase um guia espiritual (risos) e isso é correspondido, principalmente se levarmos em conta que todos torcem por todos, é um verdadeiro frisson em vésperas de estréia, o elenco dos demais espetáculos se reunindo e torcendo pelos demais, assistindo e participando da equipe técnica e produção, enfim, é uma grande família, portanto, realmente não tenho muito o que dizer do próximo, quebraria a surpresa, mas posso adiantar que, pela primeira vez, a nova geração verá um show de interpretação e uma troca de experiência profunda, pois teremos nesse último elenco grandes nomes do teatro cearense, presentes nos principais livros de hstória do teatro cearense, interpretando depois de muitos anos, se dedicando às atividades acadêmicas e técnicas, ou seja, um E-S-P-E-T-Á-C-U-L-O com todas as letras maiúsculas, estou muito orgulhoso de ser artista, de ser cearense,  de ser eu, de comemorar esse momento em minha terra, de contribuir de forma efetiva para o nosso fazer teatral e, principalmente, de ter a inestimável oportunidade de dividir meus dez anos de carreira com essa galera que fez, faz e fará por muito tempo o teatro no Ceará crescer e se mostrar bem e cada vez melhor.

É… Fiquemos na curiosidade… Quanta inspiração! Mais uma vez, parabéns ao Grupo Arte de Viver! Agradecemos desde já pelo tempo despendido à esta entrevista e, principalmente, por terem aberto com exclusividade a este blog os rabiscos iniciais, as propostas-base de figurino. Muito obrigada!

Enfim! Enquanto isso, a platéia permanece no frisson… Qual será a próxima peça? Qual a grande surpresa que o grupo nos reserva para encerrar essa trilogia? Para fechar essa primeira década de trabalhos? Por enquanto, o que pode ser dito é que é um espetáculo inédito (um texto jamais montado) de um grande autor da nossa literatura. Enquanto o grande evento, que irá inclusive encerrar as comemorações do centenário do Theatro José de Alencar, não chega, fica a dica para assistir a peça Cidade Sem Sol.

*Acompanhem a entrevista completa sobre os dez anos do Grupo Arte de Viver clicando aqui.

SERVIÇO

GRUPO ARTE DE VIVER apresenta:

 CIDADE SEM SOL



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julho 11, 2010 | Por Arteira | Comente

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